sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Vai
Você não entende nada. Parece até frase famosa de música doída, mas não, estou falando de verdade. Você não entende que uma pessoa pode ter mais de dois olhos (dos que enxergam), que a boca que às vezes engole as verdades se machuca até mais que os ouvidos aos quais se elas se destinavam, que quando mulher diz que não é nada, ela tem muito o que dizer. Não entende que eu não quero mais usar frases de efeito para me fazer entender, que eu não quero citar Goethe ou Neruda, que eu não tenho que ter como única opção dar de ombros sobre o que você reproduz dos livros. Eu não quero mais atender o telefone e dizer que a voz anasalada é porque estava dormindo, ou fingir alergias que eu não tenho para maquiar vermelhidões, ou dizer que meus olhos lacrimejam cronicamente toda vez que eu bebo cerveja. É mentira, daquelas que doem a goela, que deixam o estômago do tamanho de um amendoim, que me fazem dar um sorriso muito bonito e apagar o cigarro em seguida. Já chega. Você sugou toda a minha futilidade pra si, derreteu nossos cérebros acidamente com ela. Não quero mais que tudo o que saia dele sejam frases desconexas em papel higiênico de um bar imundo guardadas na carteira que eu esqueço em todo lugar. Estou me deixando levar pela chuva que mata, resolvi me arriscar na água de sarjeta, tudo para não ficar mais nenhum segundo no seu apartamento . Pode ficar com os livros que eu emprestei - e que você nunca leu -, pode ficar com minhas frases impactantes, com os pedaços da época em que eu achava lápis e papel uma combinação melhor que arroz e feijão, que cerveja e risada, que eu e você. Fique à vontade pra dar o bote enquanto eu sou carregada a favor da correnteza. Pra mim já chega.
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